Conservar Património – uma perspectiva pessoal sobre a origem e o percurso de uma revista

António João CRUZ

Instituto Politécnico de Tomar, Portugal; Laboratório HERCULES, Portugal
Director da revista "Conservar Património"

 

A origem

A revista Conservar Património surgiu em 2005 com o ambicioso objectivo de contribuir para o desenvolvimento da conservação e restauro em Portugal. Nessa ocasião, a formação em conservação e restauro já se realizava em escolas de ensino superior (desde 1989), mas as publicações de conservadores-restauradores continuavam a ser raras em resultado da sua aprendizagem, na maior parte dos casos, ainda se ter realizado em atelier através da tradicional relação entre mestre e aprendiz, centrada na transmissão oral, caracteristicamente fechada sobre os seus próprios segredos. Ora, parecia-me que o estatuto que se pretendia para a conservação e restauro através da criação dos cursos superiores implicava a interacção entre conservadores-restauradores num contexto aberto e consequente divulgação pública e discussão das intervenções com base num suporte escrito e num conjunto de regras claras e rigorosas, tal como sucede nas outras áreas do conhecimento. No entanto, não obstante a existência de algumas revistas nacionais ligadas ao Património, nenhuma tinha as características necessárias nem proporcionava esse espaço. As revistas internacionais também não cumpriam essa função, quer pelo pouco ou nulo contacto que, de uma forma geral, com elas tinham os conservadores-restauradores, quer pelo exclusivo interesse dessas revistas na novidade metodológica e na sofisticação dos recursos utilizados, algo que não é comum na maior parte das intervenções.

Foram estas as ideias na origem da Conservar Património. Um ano antes tinha-as apresentado à ARP – Associação Profissional de Conservadores-Restauradores de Portugal, através de um membro da sua direcção (Francisca Figueira), pois parecia-me fundamental que a revista ficasse associada à ARP tendo em conta quer os objectivos da associação, relacionados com a valorização e a defesa da profissão de conservador-restaurador, quer os profissionais que reunia.

A revista surgiu com periodicidade semestral e, numa ocasião em que o formato digital não tinha a importância actual, em suporte de papel. Definiu-se como revista científica, com, entre outras características, avaliação dos manuscritos por pares anónimos e adopção de explícitas normas for"Mais" tal como era comum nas revistas das ciências exactas e naturais, ainda que, de uma forma geral, tenha tomado como modelo a revista Studies in Conservation, do IIC – International Institute for Conservation of Historic and Artistic Works. Aberta à colaboração de qualquer conservador-restaurador, a revista igualmente manifestou o seu interesse por contribuições de outras áreas com relevância para o Património (designadamente história da arte, arqueologia, museologia, química, física, biologia, entre outras). Com o objectivo de contribuir para o estabelecimento e fixação do vocabulário técnico em português, assumiu a sua preferência pela utilização da língua portuguesa, mas sem excluir a publicação noutros idiomas (nomeadamente o castelhano). O primeiro número, além do texto de apresentação, tinha cinco artigos, duas notícias e 74 páginas (Figura 1), dimensão que, até agora, acabou por se instituir como referência (Figura 2).

Figura 1 – Capa do 1.º número da Conservar Património, de Junho de 2005.

Figura 2 – Dimensão dos números publicados. Com cor diferente estão assinalados números temáticos, os quais, salvo o número 5, correspondem a números resultantes de conferências e congressos.

Não obstante alguns objectivos e características evidentemente pouco favoráveis à entrada em bases de dados internacionais, como o uso do português, foram de imediato realizadas diligências nesse sentido, por se considerar a indexação bibliográfica inerente a uma revista científica, e antes da saída do 2.º número já estava indexada na AATA – Abstracts of International Conservation Literature, do Getty Conservation Institute e, pouco depois, nos Chemical Abstracts, da American Chemical Society. 

Os primeiros anos

Apesar da página na internet (http://revista.arp.org.pt), o alcance da revista foi reduzido, considerando quer os leitores a que chegava, devido às dificuldades de distribuição dos exemplares em papel, quer o número de manuscritos recebidos que, nalgumas ocasiões, permitiram a saída de um só volume por ano (Figura 2). Apenas conheceu maior divulgação quando, em 2008 e 2009, teve números temáticos com publicação de comunicações apresentadas em conferências científicas (HMC 08 – Historical Mortars Conference, organizado pelo Laboratório Nacional de Engenharia Civil, e Colour 2008 – Bridging Science with Art, realizado na Universidade de Évora).

Em contrapartida, o projecto recebeu importante apoio do conjunto de pessoas, maioritariamente estrangeiras, entre as quais vários conservadores-restauradores espanhóis, que aceitaram integrar o Conselho Científico criado em 2009, indispensável para o financiamento da revista pela FCT – Fundação para a Ciência e Tecnologia.

Os problemas de falta de impacto e a sucessiva diminuição dos apoios da FCT, devido à retracção económica no país, criaram uma situação que tornava inviável a continuação da revista, pelo menos, com o formato inicial. Por isso, após a saída do número 15-16, com data de capa de 2012 mas efectivamente publicado no ano seguinte, a revista mudou para formato digital de acesso livre, de modo a eliminar os custos de impressão e facilitar a sua difusão. Simultaneamente, a manutenção da página na internet e a paginação da revista passaram a ser feitas internamente, de forma gratuita, em vez de serem asseguradas por empresas do exterior como até aí.

A adopção do formato digital

A adopção do formato digital com o número 17, de 2013, realmente, reduziu sobremaneira os custos e deu à revista muito maior visibilidade e difusão. Além disso, diminuiu muito o tempo de publicação, pois cada artigo passou a ficar disponível, logo após a sua aceitação, na secção de artigos no prelo. Igualmente de acordo com as boas regras de publicação das grandes editoras internacionais, foi considerado que essa mudança implicava, como se concretizou pouco depois, a atribuição de identificador de objecto digital (DOI) a cada artigo.

Estas transformações integraram a Conservar Património numa tendência que ganhava importância crescente entre as revistas internacionais e criaram condições "Mais" favoráveis à sua admissão noutras bases de dados internacionais. Muito animador foi a aprovação, que se seguiu, em todos os 36 parâmetros do Latindex – Sistema Regional de Información en Línea para Revistas Científicas de América Latina, el Caribe, España y Portugal, pelo implícito reconhecimento da adequação dos procedimentos for"Mais" e regras seguidas.

A revista começou então a receber maior número de manuscritos (Figura 3), ainda que de modo pouco expressivo no início, e reduziu significativamente os atrasos na publicação. Pouco depois, julgando que a Conservar Património talvez tivesse condições para ser admitida em bases de dados "Mais" selectivas e prestigiantes, sucessivamente foram feitas candidaturas que originaram a sua aceitação no ERIH PLUS – European Reference Index for the Humanities and the Social Sciences e na Scopus, ambas em 2015, e na SciELO e na Web of Science – Emerging Sources Citation Index, em 2017.

A admissão na Scopus e as suas consequências

A admissão na Scopus, da Elsevier, teve profundas consequências a respeito da atractividade da revista, porque, sendo esta, tal como a Web of Science, um instrumento fundamental da avaliação do sistema científico e académico em todo o mundo, particularmente em Portugal, a partir daí, os artigos publicados na Conservar Património passaram a ser efectivamente considerados na avaliação de currículos e grupos de investigação. Assim, a revista tornou-se muito "Mais" interessante para quem desenvolve actividade relacionada com a conservação e restauro em contextos académicos e científicos, de onde sai a maior parte dos manuscritos.

Naturalmente, a ampla divulgação da admissão na Scopus, através da página da revista na internet, do Facebook (https://www.facebook.com/conservarpatrimonio) e de outros meios, suscitou um notável acréscimo do número de manuscritos recebidos (Figura 3).

Figura 3 – Número de manuscritos recebidos por ano e sua origem geográfica. Para 2018 apenas são considerados os manuscritos recebidos até Abril. Alguns números, nomeadamente os de 2008, explicam-se pelos números temáticos resultantes de conferências e congressos.

A atractividade da revista foi claramente reforçada pelos indicadores bibliométricos, resultantes da indexação na Scopus, divulgados em 2017, que a colocaram em excelente posição entre as revistas internacionais, especialmente considerando a sua recente entrada nessa base de dados e a sua preferência pelo uso da língua portuguesa num meio em que o inglês é dominante. Com efeito, o indicador CiteScore posicionou a Conservar Património na 21.ª posição entre as 53 revistas de conservação e na 13.ª entre as 37 de museologia; o indicador SJR (Scimago Journal Rank) colocou-a no 2.º quartil (Q2), quer na área da conservação, quer da museologia; e o indicador SNIP (Source Normalized Impact per Paper), que teve um valor surpreendentemente elevado (incoerente com os restantes parâmetros), atribuiu-lhe a 8.ª posição entre as 53 revistas de conservação e a 4.ª entre as 37 de museologia. Além disso, o indicador SJR, calculado retrospectivamente, mostrou que os resultados de 2016 se inseriram numa evolução francamente positiva que o valor de 2017, entretanto divulgado, continua (Figura 4).

Figura 4 – Resultados da avaliação da Conservar Património segundo os indicadores da Scopus (https://www.scopus.com/sourceid/21100463178) e da Scimago (https://www.scimagojr.com/journalsearch.php?q=21100463178&tip=sid).

Estes resultados, em grande parte, devem-se à exposição pública da revista (favorecida pelo acesso livre na internet e à indexação na Scopus) e ao facto de vários autores terem grande actividade de publicação e divulgarem noutros locais os artigos da Conservar Património.

É um facto que estes indicadores consideram apenas o número de citações e nada dizem sobre outros aspectos duma revista, a real importância de cada artigo e as suas consequências para a conservação do Património. No entanto, têm grande impacto na actividade de qualquer revista e espera-se que, aos poucos, através da renovação da profissão, acabe por também ter consequências no meio profissional.

O caminho em curso e as contradições do presente

A indexação da Conservar Património na Web of Science é muito recente e os seus efeitos não são ainda perceptíveis, mas é previsível que reforce os efeitos da admissão na Scopus e venha a atrair "Mais" e melhores artigos. No entanto, não é esperada qualquer consequência imediata fora do contexto académico e científico, pois a publicação por parte de conservadores-restauradores inseridos no mercado de trabalho continua a ser mínima, não obstante a melhoria das suas habilitações académicas. A actividade comercial, por motivos económicos compreensíveis, de um modo geral, valoriza "Mais" a intervenção propriamente dita do que a sua divulgação e, por isso, não obstante os sucessos atrás relatados, o objectivo inicial da Conservar Património de contribuir para uma maior divulgação pública e a discussão das intervenções por parte dos conservadores-restauradores, que são sobretudo realizadas em contextos profissionais, continua, por agora, por atingir.

Uma tendência que possivelmente se acentuará é a do aumento do número de manuscritos oriundos de outros países (Figura 3), entre os quais merecem destaque os países de língua portuguesa ou castelhana, especialmente o Brasil e Espanha (Figura 5). Esta tendência de internacionalização tem-se igualmente manifestado a respeito dos avaliadores.

Figura 5 – Origem geográfica dos manuscritos recebidos em 2004-2016 e 2017-2018 (apenas até Abril). No primeiro período, os países não identificados são os seguintes: Bangladesh, Colômbia, Holanda, Irlanda, México, Roménia e Suíça.

A revista prosseguirá este caminho, nomeadamente adoptando os bons procedimentos das grandes editoras internacionais (um dos "Mais" recentes foi o uso do identificador ORCID), mas, ao mesmo tempo, continuará a privilegiar o português e a incentivar a apresentação de casos, especialmente relacionados com as intervenções. Por isso, tal como antes, não colocará a tónica na novidade, procurando antes contribuir para a construção do corpus de conhecimento, que existe em qualquer disciplina bem estabelecida, mas está ainda pouco desenvolvido no caso da conservação e restauro. Não obstante partilhar muitas características com as revistas das ciências exactas e naturais, terá em conta os diferentes hábitos e metodologias das humanidades e a especificidade da conservação e restauro, entre as ciências e as humanidades.

Neste momento em que acabou de mudar a sua periocidade, passando a publicar-se três vezes por ano, a Conservar Património continuará a procurar um equilíbrio entre o nacional e o internacional, a forma e o conteúdo, a investigação e a intervenção, a novidade e a normalidade, as ciências e as humanidades, tendo sempre como objectivo último contribuir para a conservação do Património.

 


António João Cruz, "Conservar Património: equilibrios en el presente", Revista PH, 95, 2018, pp. 210-215 (versão original, em português)

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