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A radiografia no Laboratório para o Exame das Obras de Arte, do Museu Nacional de Arte Antiga (1936-1965)

António João Cruz

Instituto José de Figueiredo
Rua das Janelas Verdes, 1200 LISBOA

 

O Instituto José de Figueiredo foi legalmente criado em finais de 1965 a partir de diversos serviços que funcionavam no âmbito do Museu Nacional de Arte Antiga, nomeadamente as Oficinas de Restauro e o Laboratório para o Exame das Obras de Arte. Este, por sua vez, teve início informal em 1935, em resultado da iniciativa de João Couto, e no ano seguinte dispunha já de equipamento de raios X que constava de «pequena comutatriz para transformar a corrente de 220 V contínua, fornecida pela Companhia, em 150 V alterna; transformador, com montagem em potenciómetro, permitindo ter no secundário tensões entre 10 e 80 kV; ampola para raios X, sistema Colidge; mesa de comando com os aparelhos, indicadores da voltagem, nos bornes da ampola, e intensidade da corrente electrónica».

Ao contrário do que se possa supôr, introduzir a radiografia num museu não era, nesta época, acto pacífico, sucedendo que tal decisão não tinha noutros países boa aceitação por parte de historiadores, críticos de arte e conservadores. Como mais tarde recorda João Couto, esta atitude resultava da «necessidade, premente em muitas pinacotecas importantes, de rever as suas fichas de inventário principalmente no que diz respeito à autoria dos seus quadros, trabalho moroso, incómodo e sobretudo perigoso se acaso viesse a abalar um conhecimento tido durante longos anos como certo e tantas vezes apoiado em alicerces frágeis e em argumentos presunçosos». Além disso, nesses anos 30, os eventuais malefícios para as obras de arte resultantes da sua exposição aos raios X eram assunto de aceso debate.

A primeira radiografia é realizada, por Manuel Valadares, em 3 de Setembro de 1936 e no fim do mês o número total de documentos radiográficos ascende a 60. O trabalho abranda significativamente em Outubro, possivelmente em resultado dos transtornos causados por mudança de instalações, mas nos últimos dois meses de 1936 é em parte recuperado aquele entusiasmo, sucedendo que o número de 141 exposições aos raios X alcançado neste ano, ainda que num só quadrimestre, jamais será atingido.

Tais radiografias são efectuadas com o intuito de tornar possível «ao restaurador abordar com segurança a série de complicados problemas» colocados por alguns quadros, «esclarecer certos problemas de autoria» e, ainda, pôr em evidência «sobreposições de pinturas», «hesitações de desenho» e alguns aspectos relacionados com os suportes, como o «trabalho do caruncho». De um modo geral, são empregues condições operatórias relativamente semelhantes, a saber, corrente de 5 mA, tensão de cerca de 20 kV, tempo de exposição normalmente compreendido entre 5 e 7 minutos e distância à ampola quase sempre de 0,6 m.

Entre estas radiografias iniciais, merecem destaque as obtidas para uma obra de Hans Holbein representando A Virgem, o Menino e Santos, que permitem observar alguns elementos encobertos por repintes, bem como as dos painéis do políptico de S. Vicente. No início de 1937, em 11 de Fevereiro, parece ter ocorrido um acidente, embora não exista qualquer precisão sobre a sua natureza, estando aí, provavelmente, a causa de não ser realizada qualquer radiografia até 2 de Abril.

Também não há notícia de radiografias entre 4 de Outubro de 1939 e 19 de Julho de 1941 e entre esta data e 28 de Setembro do ano seguinte apenas dez são obtidas. Porém, é durante este período que fica concluído o edifício destinado ao instituto para o exame e restauro das obras de arte, que posteriormente se virá a chamar de José de Figueiredo, para aí se processa a transferência do laboratório, são iniciadas profundas obras no museu e, possivelmente, terá havido substituição ou alteração do equipamento utilizado. Manuel Valadares, autor das radiografias até então realizadas, por outro lado, permanece em Itália durante 14 meses.

O certo é que depois destas pausas, nos últimos meses de 1942 o ritmo de trabalho quase lembra o dos primeiros tempos. É precisamente nesta ocasião que Olívia Trigo de Sousa começa a sua colaboração com o laboratório e um numeroso conjunto de obras atribuídas a Frei Carlos é radiografado, tornando possível um importante estudo de João Couto. É também de referir que as radiografias deixam de ser obtidas sempre com a mesma intensidade de corrente (5 mA), passando esta, a par da tensão, tempo e distância, a ser uma outra variável a ter em conta durante a exposição aos raios X, tomando valores entre 2 e 8 mA.

Até 1947 são moderados os quantitativos anuais de radiografias, devendo mencionar-se durante este período, as realizadas, em 1944, do quadro representando as Tentações de Santo Antão, de Bosch, que permitem observar uma série de figuras que não são visíveis, assim como, no mesmo ano, a eventual substituição da ampola de raios X. Em 1947, no entanto, aquele número é significativamente reduzido em resultado da expulsão de Manuel Valadares da Universidade. Logo de seguida, porém, Abreu Nunes inicia o seu trabalho no laboratório, vindo a ser o autor quase exclusivo dos documentos radiográficos realizados até finais dos anos 60.

Ao terminar a década de 40, segundo João Couto, «já não se discute entre a maior parte dos homens de ofício a importância e a necessidade de utilizar processos científicos», e, por outro lado, «também não se principia a beneficiação de uma pintura de merecimento sem anteceder o trabalho do restaurador de um exame prévio e sem se organizar um processo no qual a ficha radiográfica ocupa papel de capital importância». Durante os anos 50 e 60, contudo, é muito variável o número de radiografias realizadas. Por serem muito produtivos, há que destacar os anos de 1956 e 1957, que, juntamente com 1954 e 1955, curiosamente originam documentos radiográficos que hoje se encontram em relativo mau estado de conservação.

A partir de 1957 os registos são gradualmente cada vez menos pormenorizados, sucedendo que a partir de 1962, ano em que João Couto é aposentado, não só não é indicada a data dos exames e condições em que os mesmos são realizados, como muitas obras não são sequer identificadas. Embora João Couto nestas três décadas só muito excepcionalmente tenha realizado, ele próprio, radiografias, esse facto, a adicionar à sua actividade de divulgação dos resultados obtidos, põe em evidência a importância da sua acção na história da radiografia no Laboratório para o Exame das Obras de Arte, embora, de modo algum, possa ser ignorada a fundamental contribuição de Manuel Valadares.

 


António João Cruz, “A radiografia no Laboratório para o Exame das Obras de Arte, do Museu Nacional de Arte Antiga (1936-1965)”, in 100 Anos da Descoberta dos Raios X. A radiação X no desenvolvimento científico e na sociedade, Lisboa, Universidade Nova, 1995, pp. 61-62