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O início da radiografia de obras de arte em Portugal e a relação entre a radiografia, a conservação e a política

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Referência António João Cruz, “O início da radiografia de obras de arte em Portugal e a relação entre a radiografia, a conservação e a política”, Conservar Património, 11, 2010, pp. 13-32
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Resumo A primeira radiografia de pinturas em Portugal foi efectuada em 1923, por solicitação de Carlos Bonvalot, numa ocasião em que iniciativas semelhantes ocorriam noutros países. Tratou-se de um caso isolado que só teve continuidade em 1928 quando Roberto de Carvalho e Pedro Vitorino, também às próprias custas, iniciaram um projecto sistemático que deu origem a um número muito significativo de radiografias. De acordo com as interpretações feitas pelos seus autores e por Luís Reis Santos, algumas das radiografias punham em evidência significativos problemas de restauro e de autenticidade das obras. Entre 1934 e inícios de 1936, Carvalho e Vitorino foram proibidos de radiografar obras de museus do Estado, aparentemente a pretexto de os raios X poderem danificar as pinturas, mas mais ou menos na mesma ocasião foi adquirido equipamento de radiografia para o Museu Nacional de Arte Antiga, num processo, também pioneiro, em que esteve envolvido o conservador João Couto e o físico Manuel Valadares. Considerando a coincidência cronológica das duas iniciativas e o ambiente sócio-cultural da ditadura do Estado Novo que então vigorava em Portugal, a situação aparentemente contraditória é interpretada como uma forma de evitar a situação incómoda gerada pelas fortes críticas resultantes da interpretação das radiografias e controlar o surgimento de novos problemas a esse respeito.
Abstract In Portugal, the first paintings radiographs were taken in 1923, at the request of Carlos Bonvalot, contemporarily to similar initiatives occurring in other countries. It was an isolated case that would be continued only in 1928, when Roberto de Carvalho and Pedro Vitorino, also at their own expenses, started a systematic project that yielded a significant number of radiographs. According to the interpretations of these authors, together with Luís Reis Santos, some of the radiographs brought to light significant restoration and authenticity problems affecting the paintings. Between 1934 and early 1936, Carvalho and Vitorino were forbidden to make radiographs from state museums' artworks, apparently on the pretext that X-rays might damage the paintings. However, around this date, the Museu Nacional de Arte Antiga (National Fine Art Museum) acquired radiographic equipment, in an identically pioneering process involving the curator João Couto and the physicist Manuel Valadares. Considering the chronological coincidence of these two initiatives and the totalitarian social-cultural governmental atmosphere of the Estado Novo regime in Portugal, this apparently contradictory situation is interpreted as a form of avoiding the inconvenient situation created by the strong criticism arising from radiographs' interpretations and controlling the future occurrence of alike problems.
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