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radiografia

Radiografia designa um método de análise bem como o documento que regista os resultados obtidos e consiste na imagem visível numa certaícula fotográfica ou, mais rigorosamente, radiográfica. No caso de uma pintura, coloca-se a película radiográfica em contacto com a superfície do quadro que de seguida se expõe a uma fonte de raios X posicionada do lado oposto a uma certa distância. Os raios X parcialmente atravessam a obra e originam diferenças de tonalidade na radiografia, ou densidade radiográfica, que traduzem as diferenças de opacidade aos raios X dos materiais constituintes da pintura. Os materiais mais opacos aos raios X ou mais absorventes dão lugar aos tons mais claros da radiografia, a que corresponde menor densidade radiográfica (é menor a intensidade dos raios X que atingem a película ou o detector), e os mais transparentes ou que menos absorvem os raios X dão origem às zonas mais escuras, ou seja, com maior densidade radiográfica. As condições em que é obtida uma radiografia, nomeadamente a energia dos raios X usados, que depende da fonte de raios X, a distância entre esta e a pintura e o tempo de exposição, condicionam decisivamente a imagem obtida, da mesma forma que equivalentes parâmetros afectam uma normal fotografia. Ao contrário do que sucede nas imagens adquiridas por outros métodos, um motivo visível numa radiografia tem as mesmas dimensões que o motivo radiografado, ou seja, está numa escala 1:1.

No caso de um objecto com composição heterogénea e estrutura em camadas, como é uma pintura, a densidade radiográfica de uma certa zona da radiografia traduz a soma da absorção dos raios X por cada uma das camadas atravessadas nessa zona do quadro. Porém, a contribuição para essa adição por parte das camadas menos opacas aos raios X é relativamente reduzida e, por isso, na prática, apenas as mais opacas são claramente visíveis na radiografia. A localização de cada uma das camadas na estrutura da pintura, isto é, a sua posição mais ou menos superficial, em nada afecta a imagem radiográfica obtida, pelo que apenas com esta nada é possível inferir acerca da sequência estratigráfica.

A opacidade aos raios X de uma camada de um quadro depende da sua composição química, da sua densidade e da sua espessura e é independente da opacidade à luz dos materiais que a compõem. Os materiais mais opacos aos raios X são as tintas, devido aos pigmentos que delas fazem parte. Os aglutinantes, como todos os materiais orgânicos, absorvem pouco esta radiação. De uma forma geral, os pigmentos mais opacos são o vermelhão e os que têm chumbo na sua composição, como o branco de chumbo, o amarelo de chumbo e estanho, o amarelo de Nápoles, o amarelo de crómio ou o mínio. Os corantes, como a garança ou o índigo, e o azul ultramarino contam-se entre os materiais colorantes menos opacos aos raios X.. No entanto, a opacidade de uma tinta também depende da sua densidade, ou seja da razão pigmento/aglutinante, sendo tanto maior quanto maior é esta razão. Além disso, é importante ter-se presente que uma camada cromática de uma pintura frequentemente envolve a mistura de duas ou mais tintas e, consequentemente, contém mais do que um pigmento. Neste caso, a sua absorção é a soma da absorção devida a cada um dos pigmentos após consideração da diluição resultante da mistura.

A grande espessura com que alguns materiais surgem num quadro pode ser responsável pela sua boa visibilidade numa radiografia, mesmo que sejam materiais classificados como pouco opacos aos raios X. É o caso da madeira, utilizada como suporte ou usada na grade. Mas o contrário também se verifica, isto é, materiais muito opacos aos raios X podem ser dificilmente detectáveis numa radiografia por causa da sua reduzida espessura. É o que acontece, por exemplo, com a folha de ouro existente nalgumas obras. No que toca às camadas de tinta, o efeito da espessura traduz-se no facto de camadas com a mesma composição poderem apresentar opacidade significativamente distinta se possuírem diferente espessura, enquanto camadas quimicamente muito diferentes podem ter opacidade semelhante devido à desigual espessura.

Porque os pigmentos brancos geralmente são os mais abundantes numa pintura, surgindo misturados em grande número de camadas de outra cor, e, por outro lado, porque o branco de chumbo é praticamente o único pigmento branco usado na pintura de cavalete até meados do século XIX e é um dos pigmentos mais opacos aos raios X, muito frequentemente a radiografia de uma pintura sobretudo traduz a distribuição do branco de chumbo na obra. Por isso, muitas vezes há correspondência entre as zonas mais claras da pintura e as zonas mais claras da respectiva radiografia. No entanto, há também muitas razões para que isso não aconteça, mesmo considerando-se relativamente constante a espessura das várias camadas cromáticas, uma vez que não existe nenhuma relação directa entre a cor de um pigmento e a sua opacidade aos raios X. Por um lado, há pigmentos com outras cores que igualmente são relativamente opacos aos raios X; por outro lado, há século e meio que são usados pigmentos brancos bastante menos opacos (branco de zinco e branco de titânio).

A principal utilidade da radiografia resulta da possibilidade de detectar camadas de pintura não superficiais que podem estar relacionadas com a execução de um motivo, a sobreposição de diferentes motivos, os arrependimentos ou os repintes. Igualmente permite detectar significativas variações da espessura de uma certa camada de tinta, superficial ou não, em resultado da forma de aplicação usada pelo pintor ou da existência de danos como os que se manifestam na rede de estalado e nos destacamentos. Nalguns casos permite dar conta da utilização de diferentes materiais em zonas com a mesma cor, devido à sua diferente opacidade aos raios X, e assim pode evidenciar diferentes fases de execução de uma obra. A respeito dos suportes, possibilita a determinação de algumas características das telas, como a densidade dos fios, quando as mesmas não são visíveis pelo reverso devido a reentelagem dos quadros. Nesta situação só com a radiografia é possível ver certas deformações da tela que podem indiciar a não diminuição das dimensões da obra ou observar a utilização de diversos fragmentos de tecido. Nas pinturas sobre madeira permite detectar as galerias de insectos e visualizar os elementos internos de ligação entre as tábuas de um painel. Portanto, a radiografia pode ser muito útil para a determinação do estado de conservação de uma pintura e a caracterização técnica da obra e do pintor.

A primeira radiografia de uma pintura foi efectuada em 1896 por W. König, tendo já sido reconhecido nessa ocasião o interesse para a detecção de estruturas não visíveis, o diagnóstico do estado de conservação e os estudos relacionados com a autoria e a autenticidade. A sua utilização, porém, só ganhou dimensão significativa após a I Guerra Mundial, em França, quando foi aproveitado equipamento médico ambulante que ficou disponível. Os interessantes resultados obtidos levaram à aquisição de equipamento especializado pelo Museu do Louvre em 1926 e pela National Gallery, em Londres, em 1934. Por esta época esse tipo de equipamento não só passou a ser indispensável nos laboratórios associados a museus, que iam surgindo em vários países, como proporcionou o principal meio de estudo material de pinturas. Pela intenção de, através de casos concretos, mostrar a importante contribuição que a radiografia pode dar à resolução de problemas de história da arte é de referir o livro publicado por Alan Burroughs em 1938, Art Criticism from a Laboratory, que dá conta do trabalho desenvolvido desde 1925 no Fogg Museum, da Universidade de Harvard. No campo da divulgação junto de um público muito mais vasto merece destaque a actividade desenvolvida por Madeleine Hours e a sua equipa do Museu do Louvre nas décadas de 50, 60 e 70 que se traduziu em vários livros e exposições com marcadas preocupações didácticas e uma série de televisão (La Vie Mystérieuse des Chefs-d’oeuvre). Embora a radiografia não seja o único método de análise envolvido, teve um papel fundamental em todas essas iniciativas.

Em Portugal, o mais antigo caso conhecido do uso da radiografia na observação de uma pintura data de 1923 e deveu-se à iniciativa do conservador e pintor Carlos Bonvalot. Em 1928 Roberto de Carvalho e Pedro Vitorino iniciaram um programa sistemático de radiografia de pinturas, obtendo algumas centenas de documentos radiográficos inteiramente à sua custa. O seu trabalho foi interrompido na década seguinte por terem sido proibidos de radiografar obras de museus do Estado. Embora tenham sido alegados eventuais danos causados às pinturas pelos raios X, muito provavelmente a proibição deveu-se às situações embaraçosas criadas pelas radiografias pois estas, segundo a interpretação efectuada, davam conta do muito mau estado de conservação de algumas das obras expostas e, em consequência, punham em causa a história da arte, a conservação e restauro e as instituições e as políticas do sector. Pouco depois, em 1936, foi adquirido equipamento de radiografia para o Museu Nacional de Arte Antiga, estando activamente envolvidos no seu usoísico Manuel Valadares e o conservador João Couto. Os painéis de Nuno Gonçalves foram das primeiras obras radiografadas.

Tradução

radiography (método), radiograph (documento) / radiographie / radiografia / radiografía

Bibliografia

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